STEINIANA

REVISTA DE ESTUDIOS
INTERDISCIPLINARIOS
ISSN 0719-8728

2018 / Nº2 / VOL.II

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Título: Análise fenomenológica da empatia na perspectiva do desenvolvimento de uma filosofia da pessoa humana
Apellido, Nombre del autor: Dr. Carlos Eduardo de Carvalho Vargas/ Prof. Ddo. Moisés Rocha Farias
Resumen / Abstract:

Resumo: Este artigo pretende analisar a noção de empatia conforme a metodologia da clarificação epistemológica de Edith Stein, verificando qual é o alcance da antropologia filosófica que surge da descrição das operações e estruturas que correspondem à empatia. O trabalho é focado na obra Sobre o problema da empatia, analisando especialmente a reflexão antropológica desenvolvida ali sobre os aspectos corporais, psíquicos e espirituais. No final, questiona-se a importância desses temas antropológicos para o desenvolvimento posterior da obra steiniana e para uma possível filosofia fenomenólogica da pessoa humana.

Abstract: This article intends to analyze the notion of empathy according to the methodology of the epistemological clarification of Edith Stein, verifying what is the scope of the philosophical anthropology that arises from the description of the operations and structures that correspond to the empathy. The work is focused on the work On the problem of empathy, especially analyzing the anthropological reflection developed there on the corporal, psychic and spiritual aspects. In the end, we question the importance of these anthropological themes for the later development of the Steinian work and for a possible phenomenological philosophy of the human person.

DOI: http://dx.doi.org/10.7764/Steiniana.2.2018.1
Palabras claves / Keywords: Palavras-chave: Edith Stein. Empatia. Fenomenologia. Antropologia Filosófica. Pessoa Humana. Key-words: Edith Stein. Empathy. Phenomenology. Philosophical Anthropology. Human Person.
Filiación: Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUC - PR/ Edith Stein Circle / Centro Universitário Católica de Quixadá - UNICATÓLICA/ GT Edith Stein
Mail: sammler@gmail.com / moisesdacruz@hotmail.com

 

Introdução

Edith Stein (1891-1942), também conhecida como santa Teresa Benedita da Cruz (Teresia Benedecta a Cruce), descreveu a sua concepção de empatia na tese de doutorado que defendeu no ano de 1916, em Freiburg, Alemanha, sob orientação de Edmund Husserl. A jovem filósofa alemã utilizou um método de análise da empatia conforme a clarificação fenomenológica que ela havia aprendido com Edmund Husserl. Na biografia de Edith Stein também pode-se identificar que ela passou das reflexões husserlianas sobre lógica para a fenomenologia propriamente dita, aumentando a importância da noção de empatia na sua busca da verdade.

Na obra Sobre o problema da empatia ( Zum Problem der Einfühlung), percebe-se que Edith Stein foi além da análise filosófica do ato da empatia (Einfühlung), aprofundando-se no tema da estrutura subjacente à pessoa humana. A doutora Mary Catharine Baseheart[1], no prefácio à terceira edição norte-americana da obra “Sobre o problema da empatia”, já havia alertado sobre a importância da análise do conceito de empatia para compreensão do "eu", como pessoa, desenvolvida no conjunto da obra de Edith Stein. Contudo, o prefácio citado não se referia à "antropologia filosófica", mas afirma que a tese Sobre o problema da empatia “esboça as linhas gerais de sua filosofia da pessoa humana, cujos detalhes ela [Edith Stein] preencherá em investigações posteriores[2][3]. Por que há esta ligação que parece essencial entre a análise das vivências relacionadas com a empatia e a compreensão da noção de “pessoa humana”? Na tese citada, a jovem filósofa alemã apresentou descrições dos aspectos físicos, psicológicos e espirituais da pessoa humana. Tratam-se de reflexões filosóficas que podem ser relacionada com as questões sobre o ser humano que foram desenvolvidas nos seus trabalhos posteriores.

Francisco Javier Sancho Fermín[4] também apresentou algumas análises sobre a importância do estudo acerca da Empatia na vida e na obra de Edith Stein, extrapolando os limites da teoria do conhecimento e destacando a importância do problema antropológico para a jovem filósofa alemã: “o problema que Edith pretende resolver é o da pessoa como sujeito espiritual. É o fundamento de todas as suas investigações posteriores nas quais o interesse antropológico constitui a sua preocupação primordial[5]”.

 

1. O itinerário de Edith Stein de busca da verdade no desenvolvimento da sua noção de empatia

 

A obra Sobre o Problema da Empatia corresponde à tese de doutorado defendida por Edith Stein, em 1916, sob orientação de Edmund Husserl, na Universidade de Freiburg. A obra foi publicada pela primeira vez em Halle, em 1917. O título original da tese era O problema da empatia em seu desenvolvimento histórico e em sua consideração fenomenológica (Das Einfühlungsproblem in seiner historischen Entwicklung und in phänomenologischer Betrachtung). Na publicação de 1917[6], disponibilizada pelo Arquivo Edith Stein, organizado pelo Carmelo “Maria vom Frieden” em Colônia, Alemanha, não consta o primeiro capítulo da tese.

Quando Edith Stein pensava em fenomenologia, cem anos atrás, ela tinha em mente a obra que Edmund Husserl havia publicado mais recentemente: Ideias para uma fenomenologia pura e filosofia fenomenológica, primeiro livro: introdução geral à fenomenologia pura[7], a qual seria publicada como o volume Hua III/1 da coleção Husserliana (abreviatura: “Hua”), que é a coleção crítica das obras de Edmund Husserl[8]. Outra referência fundamental para o estudo fenomenológico de Edith Stein, como ela ainda citaria em estudos posteriores[9], era o segundo volume da obra Investigações Lógicas (Logische Untersuchungen), que Husserl[10] havia publicado originalmente em Halle, no ano de 1901. Foi a partir do interesse inicial pelas Investigações Lógicas que Edith Stein havia começado a estudar com Husserl, em Göttingen, alguns anos antes, em 1913.

Edith Stein já havia conhecido a obra Investigações Lógicas , em 1912, na Universidade de Breslau, sua cidade natal. Naquela ocasião, a jovem estudante utilizou a obra Investigações Lógicas ao preparar uma apresentação na disciplina de introdução à psicologia[11], ministrada por Wilian Stern (1871-1938). Buscando um conhecimento mais profundo do ser humano, em abril de 1913, Edith Stein afastou-se de Breslau e da psicologia experimental, mundando-se para Göttingen, onde poderia frequentar os seminários de filosofia ministrados por Herr Professor, Edmund Husserl. Naquela ocasião, Adolf Reinach (1883-1917) era o doutor assistente de Husserl e ajudou-a nesta adaptação, tendo ministrado à jovem estudante um curso de introdução à filosofia[12].

O ano de 1913 foi especialmente marcante para o movimento fenomenológico, em virtude da publicação da obra Ideen I, que foi tema dos estudos daquele grupo de filósofos que se reuniam semanalmente na casa onde morava a família formada por Edmund e Malvina Charlotte Steinschneider Husserl (1870-1960). Angela Ales Bello também enfatizou a compreensão da fenomenologia como uma “escola filosófica”, mais do que mera “corrente filosófica”: “entre o mestre e os discípulos havia relacionamentos de amizade cotidianos [...] os encontros aconteciam também na casa em que residia e não apenas na Universidade[13]”.

A “escola fenomenológica”, como um “movimento intellectual”, teve um desenvolvimento significativo no período em que Husserl esteve em Göttingen, entre 1901 e 1916[14]. Foi justamente no período de Göttingen que Edmund Husserl passou a “ser considerado como a figura principal na fenomenologia” (be regarded as the leading figure in phenomenology)[15]. Em Göttingen, o movimento fenomenológico incluiu Edith Stein e outros filósofos como Hedwig Conrad-Martius (1888-1966), Theodor Conrad (1857-1915), Roman Ingarden (1893-1970), Dietrich von Hildebrand (1889-1977), Hans Lipps (1889-1941), Fritz Kaufmann (1891-1958) e Alfred Reinach. Max Scheller (1874-1928) não morava em Göttingen, mas foi convidado pelo grupo dos seguidores para ministrar algumas conferências naquela “sociedade filosófica”, ajudando a jovem filósofa a mudar sua atitude intelectual em relação à religião[16].

O filósofo Jitendra Mohanty[17] apresentou uma classificação da obra de Husserl, dividindo sua biografia em quatro partes, as quais fazem referência a três cidades em que Husserl viveu e lecionou (Halle, Göttingen e Freiburg), acrescentando um período relacionado à sua aposentadoria. Esta divisão das fases da filosofia husserliana também enfatiza a importância da “formação da escola fenomenológica”: “Husserl começou a ensinar, em Halle [...], depois foi convidado a lecionar em Göttingen [...] e se transferiu posteriormente para Freiburg, na Alemanha, onde permaneceu até a morte, em 1938[18]”.

Quando Husserl assumiu um cargo em Freiburg, Stein tornou-se sua assistente. A filósofa alemã teve grande familiaridade com o pensamento do seu professor, chegando a trabalhar na edição de Ideias para uma fenomenologia pura e filosofia fenomenológica, segundo livro: investigações fenomenológicas sobre constituição[19]. Esta obra seria publicada como o volume IV da coleção Husserliana[20], em 1952, quando foi editada por Marly Biemel.

A ideia de fazer uma tese de doutorado sobre empatia tinha surgido a partir das aulas de Edmund Husserl em Göttingen, quando o professor, ensinando sobre o tema da natureza e do espírito, em 1913. Tratava-se de investigações que visavam fundamentar as ciências do espírito e da natureza. O professor enfatizou a importância da experiência dos outros em relação ao mundo exterior e à intersubjetividade, envolvendo o intercâmbio de experiências cognitivas dos indivíduos. A jovem filósofa[21] assumiu o desafio de tentar compreender o que consistia essa vivencia citada por Husserl[22].

Se Edith Stein, com toda a sua originalidade filosófica e espiritual, deve algo a Edmund Husserl, observe-se que a noção de empatia é anterior ao autor de Ideen I. Dermot Moran[23] refere-se a reflexões filosóficas anteriores que também podem ser associadas ao problema da empatia. No século XVIII, os moralistas britânicos, como Francis Hutcheson (1694-1746), David Hume (1711-1776), Anthony Shaftesbury (1671-1713) e até mesmo Adam Smith (1723-1790) discutiam sobre ética utilizando o conceito de “simpatia” (“simpathy”) para explicar os fundamentos das experiências morais e estéticas.

A palavra alemã “Einfühlung” teria sido cunhada por Theodor Lipps (1851-1914) a partir do termo grego “empatheia”, referindo-se ao ato de sentir ou refletir sobre as experiências alheias[24]. No contexto dos psicologistas alemães, entre o século XIX e XX, o termo Einfühlung, alternado com o antigo conceito de “Simpatia” (Sympathie) foi utilizado em discussões éticas e psicológicas, que envolveram pensadores como Benno Erdmann (1851-1921), Hugo Miinsterberg (1863-1916), Stephan Witasek (1870-1915), Oswald Külpe (1862-1915) e até mesmo Alexius Meinong (1853-1920). No contexto do movimento fenomenológico, o tema da Empatia também foi tratado por filósofos como Max Scheler, Moritz Geiger e, principalmente, Theodor Lipps, cujo nome aparece mais de vinte vezes na tese de Edith Stein. A jovem filósofa alemã dedica uma seção do capítulo sobre “a essência da empatia” (Das Wesen der Einfühlungsakte) da sua tese para discutir as demais concepções de empatia, destacando a importância de Theodor Lipps[25].

Edmund Husserl[26] iniciou sua reflexão sobre a empatia, nas suas lições sobre a “teoria do juízo” (Urteilstheorie), em 1905, dialogando com a obra de Theodor Lipps, o qual foi um filósofo e psicólogo alemão, professor na Universidade de Munique. Na sua obra tratou de temas variados, como lógica, psicologia, arte e estética. Na história da psicologia, ficou conhecido pela sua concepção de “psicologia aperceptiva” ou “psicologia pura”. Johán Vicente Viqueira[27] (1886-1924), em sua obra sobre a “psicologia contemporânea”, inclui Theodor Lipps no capítulo sobre a “psicologia introspectiva”, fazendo relações com Franz Brentano. O Manual de Psicologia de Theodor Lipps[28], publicado originalmente em 1903, utiliza a palavra “empatia” (Einfühlung) mais de cem vezes, tendo um capítulo[29] sobre a empatia na seção sobre “conhecimento e erro” (Erkenntnis und Irrtum), onde analisa a empatia como uma “fonte de conhecimento” (Erkenntnisquellen).

Observe-se que Theodor Lipps teve uma influência importante no início do movimento fenomenológico[30], pois “os primeiros e principais fenomenólogos de Munique, foram seus discípulos[31]”. Entre os fenomenólogos que foram alunos de Lipps, pode-se citar Alexander Pfänder (1870-1941), Adolf Reinach (1883-1917), Johannes Daubert (1877-1947), Theodor Conrad e Moritz Geiger (1880-1937). António Fidalgo[32] apresentou um estudo sobre a influência de Lipps no movimento fenomenológico, incluindo a relação entre filosofia e psicologia, o método da auto-observação, comparações de Theodor Lipps com a “Escola de Brentano” e a questão da resposta de Lipps às críticas elaboradas por Husserl[33], nos Prolegômenos à Lógica Pura (Logische Untersuchungen, Erster Teil: Prolegomena zur reinen Logik). Dermot Moran[34] destaca a influência sobre Edmund Husserl do Manual de Psicologia de Theodor Lipps[35], que se tornou uma referência clássica na discussão sobre a empatia. Edmund Husserl[36] critica Lipps nos Prolegômenos à Lógica Pura, mas também o cita em seus estudos sobre intersubjetividade[37]. Durante mais de 30 anos, de 1905 a 1938, Edmund Husserl continuou refletindo sobre o tema da empatia no decorrer de sua obra[38], questionando-se sobre o conhecimento do outro em suas reflexões sobre a objetividade e, principalmente, sobre a intersubjetividade.

 

2. Sobre o problema da empatia

 

A obra que Edith Stein publicou em 1917 com o título Sobre o problema da empatia começa com a análise da essência dos atos de empatia e problematiza os possíveis métodos de investigação. A autora compara a empatia com outros atos visando a sua essência. No início do trabalho, Edith Stein[39] oferece uma definição geral de empatia como “experiência da consciência alheia em geral” (Erfahrung von fremdem Bewußtsein überhaupt). Na sequência, Stein[40] apresenta uma perspectiva crítica em relação aos outros filósofos que trataram o tema da empatia, especialmente Max Scheller e Theodor Lipps. A filósofa alemã destaca a diferença da abordagem fenomenológica da empatia em relação aos possíveis instrumentais psicológicos.

Para Edith Stein, a empatia é especialmente importante para a compreensão das pessoas espirituais, destacando o papel da concepção de empatia para as “ciências do espírito”. Para a autora, a empatia é uma condição de possibilidade da constituição da pessoa. A obra Sobre o problema da empatia problematiza a relação entre empatia e a antropologia filosófica, refletindo sobre temas como consciência, “eu puro”, corpo, vontade, sentimentos, etc. Edith Stein também considera, em sua obra, as condições de possibilidade da empatia como a intersubjetividade e os sentimentos. No final, a fenomenóloga alemã enfrenta alguns enganos filosóficos relacionados com a empatia e oferece correções.

Na tese Sobre o problema da empatia, Edith Stein inicia sua investigação sobre a empatia a partir da constatação indubitável do fenômeno da “vida psíquica alheia” (fremdem Seelenleben). A importância desta afirmativa é justamente a supressão de todas as abstrações que possam comprometer o resultado, passando assim a estabelecer como princípio de sua pesquisa esta verdade. Este ser “alheio” (fremdem) , como ela denomina, nada mais é que um outro eu, que tem por sua vez a mesma estrutura que a minha, com diversas vivências. É sobre essas realidades que se estabelece a questão da empatia.

Todos estes dados relativos à experiência vivida alheia remetem a um tipo de atos nos quais é possível colher a mesma experiência vivida alheia. Sobre estes atos é baseado nesse conhecimento particular que queremos agora indicar com o termo "empatia" (Einfühlung). Edith Stein[41] se propõe a descrever de que forma estes atos empáticos se dão, bem como sua distinção de outras vivências.

Conforme Stein[42], a empatia é diferente da “percepção externa” (äußere Wahrnehmung). Por percepção externa devemos compreender a sensação. No caso da empatia, a percepção externa é a percepção de uma expressão de dor ou alegria que o ser alheio manifesta. A empatia é a apreensão da dor ou alegria em si, e não uma percepção da manifestação do sentimento do indivíduo. A empatia também difere da recordação, da espera, e da fantasia, pois na empatia é o próprio indivíduo que vivencia, o conteúdo vivenciado pelo outro.

O intento de Edith Stein não é outro, senão descrever a experiência do alheio a mim, de uma forma geral. Isso nos põe diante da constituição do indivíduo, com toda a problemática antropológica relacionada. Para a filósofa alemã, a empatia é a tomada de consciência do outro como semelhante a mim bem como de suas vivências interiores. Não há uma completa coincidência entre o eu empático e o sentimento alheio que se reduzirá em objeto empatizado. Com essa afirmação ela quer resguardar a unicidade do indivíduo, que é de todo importante para sua realização como pessoa humana. A empatia, como vivência não-originária de uma vivência originária (ursprüngliches Erlebnis).

Uma das relações que podemos estabelecer também junto a empatia é o consentimento pois, diferente da vivência empática, na qual eu apreendo a vivência do outro, há de se saber, se essa vivência será consentida ou não, já que a alegria do outro, que eu apreendo empaticamente e que eu posso consentir, pode ser mais intensificada ou não. O que devemos perceber é que a vivência empática é anterior ao consentir ou não consentir, como dois momentos distintos.

Há também a vivência da empatia negativa[43], que trataremos agora. Quando estamos diante de outro eu, que numa alegria originária comunica sua vivência, mas por qualquer outro motivo o meu eu está mergulhado numa vivência de melancolia e, apesar de apreender a alegria do outro, estabeleço barreiras para que essa alegria não produza em mim uma alegria originaria, que Stein denomina como “empatia negativa” (Negative Einfühlung).

A empatia é a posse do conhecimento da vivência do outro. Não devemos entender como posse de algo que eu domino no outro. Diferente disso, a empatia é conhecimento da essência da vivência vivida pelo outro. A apreensão do objeto da vivência do outro é o momento onde se estabelece o ato empático, sendo que as ações e reações que ocorram a partir do estabelecimento deste ato não fazem mais parte da empatia, pois esta já ocorreu. Edith Stein explica que a empatia também não pode ser tida como resultado de uma associação de atos psicofísicos[44]. Sendo assim, a teoria associativa (Die Assoziationstheorie) não estabelece a gênese da ação empática, como a filósofa alemã explicou na quinta seção do segundo capítulo de sua tese[45].

Outra distinção que devemos fazer é entre a percepção interna e a empatia, pois, comumente, sua aproximação vivencial favorece um engano, igualando seus conceitos de maneira errônea. Já vimos como se dá a vivência da percepção externa do outro, contudo também existe a percepção interna que Edith Stein achou por bem denominar “intuição interna”. Para melhor esclarecer, vamos então apresentar suas distinções, que consistem no núcleo originário ou não-originário. Na vivência empática o ato se dá primeiro como não originário, já que a vivência não se inicia no meu eu e apreendo a vivência do outro, que produz em seguida um ato originário no meu eu (co-originário). Coisa diversa acontece na vivência da “intuição interna”, pois é meu eu o originário da vivência.

 

3. da análise da empatia à estrutura da pessoa humana

 

A análise da empatia também possui a sua importância na compreensão da constituição da pessoa humana. O desenvolvimento de uma antropologia filosófica inspirada no pensamento de Edith Stein passa pela compreensão da empatia como algo constitutivo do ser humano. A capacidade de vivenciar a empatia, ou a potência empática, não é algo específico de um ou outro indivíduo, como uma exclusividade subjetiva, mas é uma vivência universal. A clarificação desta problemática passa pela compreensão filosófica do indivíduo e sua constituição.

Depois do capítulo sobre a essência do ato da empatia (Das Wesen der Einfühlungsakte), Edith Stein[46] passa para a sua análise da constituição do indivíduo psicofísico (Die Konstitution des psychophysischen Individuums). Neste terceiro capítulo da tese original, Edith Stein[47] enfrenta vários temas antropológicos. Podemo-nos perguntar por que a análise da essência da empatia está relacionada com temas fundamentais da antropologia filosófica? Pelo menos, foi esse o caminho que a jovem filósofa escolheu para desenvolver sua pesquisa fenomenológica sobre a empatia.

Na tese Sobre o Problema da Empatia (Zum Problem der Einfühlung), Edith Stein trata de questões como “o puro eu” (Das reine Ich)[48] e o “fluxo de consciência” (Der Bewußtseinsstrom) [49]. Outro tema importante na tese steiniana sobre empatia é a relação entre “o eu e o corpo vivo” (Ich und Leib)[50], que inclui a relação do corpo vivo (leib) com “os sentimentos” (die Gefühle)[51], com a “alma” (Seele)[52] e com a “vontade” (Wille)[53]. O ser humano não pode ser visto como mera psique, nem muito menos como uma matéria unicamente. Esta matéria corpórea tem algo além do material, é uma alma, uma psique[54]. A análise da dimensão do “corpo próprio” mostrou-se esclarecedora para a compreensão da empatia buscada por Edith Stein.

Pelas capacidades dos órgãos dos sentidos, pode-se mensurar as coisas, objetos que estão ao alcance, seja pelo tato, visão, audição. Contudo, estes resultados da percepção não ficam limitados a uma informação somente. Quando vemos um pôr do sol, que é captado pela visão, ele não é um mero movimento solar. Este fenômeno pode trazer inúmeras outras reações: de encantamento, de emoção, de extasiamento. Quando escuto uma música, meu aparelho auditivo vai captar o som independente de qual instrumento, seja de sopro, das vibrações das cordas, por exemplo: sendo eu só corpo não teria a capacidade ou condição de ver nesse som motivações para gerar no meu interior alegria, ou emoção e claro como acabamos de falar, é justamente nesse interior que reage à informação percebida, que podemos identificar como algo vivo. É um corpo, mas um corpo vivo, que eu sei que não é o meu próprio corpo[55].

Esta relação, descrita acima, entre o conteúdo da percepção e a reação no meu interior, pode ser chamada de “sensação”. Ora, não podemos deixar de evidenciar, que um corpo sem vida, um cadáver não tem “sensações” (Empfindung). Na sua tese sobre empatia, Edith Stein[56] analisa a relação das sensações com os sentimentos. A jovem filósofa oferece exemplos como as sensações de comer algo “saboroso” (wohlschmeckenden) ou de sofrer “uma dor sensível” (eines sinnlichen Schmerzes).

Para Edith Stein, as sensações não são um ir ao objeto. Contudo, as sensações também não estão no corpo como algo físico. Cada “sensação” é um “onde”, termo usado pela filósofa alemã, pois se colocarmos um cadáver num freezer, ele não sentirá frio, apesar de ser um corpo. Portanto, é a vitalidade sensorial ativa, encontrada no “corpo vivo” (Leib) que podemos denominar de unidade do meu corpo próprio. Este “onde” que não é uma localização geométrica, é o referencial do meu corpo próprio, assumindo duas dimensões no meu eu: a primeira é sua relação com o externo e a segunda sua relação interna ou sensorial[57].

Além da capacidade passiva do corpo próprio, referente às percepções que lhe chegam, há uma outra esfera que é a capacidade ativa do corpo próprio. Todas as outras coisas estão fora de mim de forma diversa, agrupadas com sua mutabilidade própria, não só de localização bem como de estado. Contudo, o meu corpo próprio, pela sua forma ativa, pode aproximar-se deste objeto e não daquele. Outra possibilidade é estar aqui e ser levado pelo meu pensamento à minha casa paterna, ao meu escritório, a diversos lugares. Mesmo meu corpo estando parado, minha atividade reflexiva pode “levar-me”, e nessa atividade, pode-se dizer que meu “corpo próprio” vai comigo e pode produzir sensações no meu eu puro, onde por meio dele poderei presentificar vivências anteriores ou hipotéticas. O que se quer dizer com isso é que o corpo próprio tem a capacidade de ativar suas ações, não se limitando ao corpo físico. A outra relação que devemos analisar é “o corpo próprio e os sentimentos” (Der Leib und die Gefühle), visto que estes são vivenciados como consequências diretas das sensações corporais[58].

Na sua tese sobre empatia, Edith Stein[59] explica os sentimentos comuns, subdividindo-os em dois. Por um lado, ela se refere aos sentimentos de natureza não corporal, que são os estados de ânimo, como a alegria, a melancolia; por outro lado, ela trata dos sentimentos de natureza corporal propriamente dita como, por exemplo, o cansaço. Exemplificando: eu posso estar diante de uma situação, que, ao que tudo indica me moveria à alegria, ao contentamento, mas devido ao meu cansaço aquilo não gera em mim o resultado esperado. É preciso que percebamos os dois níveis de sentimentos, são originariamente distintos, pois um o tenho no corpo, no físico propriamente dito, e o outro na alma, ou na psique[60].

Os sentimentos são atividades carregadas de certa energia, que por sua vez deverão ser descarregadas motivando vontades e ações. É neste ponto que passamos à análise dos fenômenos das expressões decorrentes dos sentimentos, que não são somente efeitos do psíquico no físico, mas exercem um novo fenômeno provindo desta “energia”, em ações deliberadas pelo meu “eu”, as quais chamamos de “expressão” (Ausdruck).

A expressão, propriamente dita, não é necessariamente uma “causalidade psicofísica” (psychophysische Kausalität) [61], tendo em vista as inúmeras possibilidades expressivas diante de certo sentimento. O que devemos entender é que, há uma expressão para o sentimento mesmo que esta expressão não seja correlata a ele. Exemplifiquemos: se meu chefe me faz sentir uma raiva tão intensa, que a vontade que eu tenho é de ir até ele, agindo com violência, posso ficar “vermelho de raiva”. Contudo, considero minha necessidade de trabalhar, me contenho e não manifesto essa “ira” (Zorn). Vemos agora com maior clareza os três elementos: o sentimento, sua ação física e a expressão. Ora não somente sinto como o sentimento flui na expressão e “se descarrega”, mas a própria expressão me vem dada em uma percepção corporal[62].

Na análise da empatia, considerando a unidade psicofísica do ser humano, Edith Stein reconhece outro aspecto, não de menor importância, que é a “vontade” (Wille). Este aspecto, assim como o sentimento, não é fechado em si mesmo, mas produz uma ação ou ato da vontade. Quando estamos refletindo sobre uma tomada de decisão e analisamos os pormenores dos prós e dos contras, chegamos a uma determinada decisão. Tal decisão pode ser tomada de forma interior, mas, uma vez tomada, ela exerce um desencadeamento de ações para efetivar o que antes foi decidido.

A determinação da vontade vai colocar todo meu físico e psíquico para a conquista da meta determinada. Por vários motivos, o nosso físico pode cansar ou desistir, mas é a vontade quem determina avançar ao meu limite. Quando vemos um atleta no esgotamento físico e mesmo assim ele insiste em terminar a competição, existe aí uma ação da vontade. Quando um dependente de drogas, licitas ou ilícitas, passa por seu processo de recuperação, ele pode sentir um impulso físico contra sua determinação. Contudo, a “força de vontade”, como o senso comum nomeia, deve determinar sua ação[63].

Depois de analisar a vontade, seguindo os ensinamentos de Edith Stein[64], podemos chegar a uma primeira conclusão a respeito deste ser psicofísico possuidor de uma alma e um corpo. Este corpo próprio tem suas vivências, dentre outras os sentimentos, estes por sua vez produzem ações e reações que denominamos expressões. Por fim, identificamos a vontade como ordenadora por excelência deste corpo próprio. Contudo toda essa análise estrutural foi feita mediante o meu “eu”, mas como fica esta transição para outro indivíduo? Este tema é fundamental na análise da empatia.

Um aspecto que se manifesta é a possibilidade de livre movimento do corpo próprio alheio. Estes movimentos não devem ser vistos como meramente mecânicos. Edith Stein[65]   distingue o movimento “mecânico” (mechanischer) e o movimento “animado” (lebendiger). O movimento do corpo vivo é entendido como animado justamente por se tratar de um corpo próprio, que, através do seu movimento, expressa uma “vivência”.

Outro fenômeno constitutivo do corpo alheio próprio é a “causalidade” (Kausalität) na estrutura do indivíduo, o qual está sujeito às leis da física, mas não está restrito a essa dimensão física. Este indivíduo pode exercer uma ação ou sofrer uma ação do mundo que o cerca. Há uma relação entre o psíquico e o físico e vice-versa. Esta causalidade psíquica pode estar relacionada não só com o presente mais também com o futuro, contudo não há uma necessidade condicionante, pois cada vivência é uma ação do indivíduo particular e diz respeito à vida individual. Uma tomada de decisão no presente pode ter seu efeito com o passar dos anos. Contudo, devemos deixar claro que não há uma ação determinante, isto é, uma vivência no passado jamais poderá determinar minha vivência atual, considerando que a soberania da vontade psíquica sobre o indivíduo psicofísico[66].

O “corpo vivo” alheio também possui a sua importância para a constituição do meu “eu individual”. Ao percebermos interiormente nosso eu anímico, com suas qualidades e defeitos, podemos ter uma ideia de como os outros nos vêm. A superação das minhas atitudes ingênuas frente às minhas vivências e aos demais indivíduos me leva a assumir novos objetos de reflexão. Com essa mudança de postura intelectual, passa-se a apreender o real sentido da vivência, o que é de fundamental importância para o desenvolvimento de cada indivíduo como pessoa.

De forma diferente, se dá a apreensão das vivências do outro. A apreensão de uma outra pessoa não se dá de maneira originária, a qual já se põe como objeto, aparecendo como um corpo físico fora do meu ponto referencial de localização, que é o meu próprio corpo. Há aqui uma compreensão de similitude do eu com o alheio a mim. Com minhas atitudes reflexivas obtenho a imagem que o outro tem de mim, dito de outra forma, o outro ajuda a mostrar quem eu sou. Por que isso acontece? Porque na verdade ele é um indivíduo dentre tantos que podem ter outras visões ao meu respeito e desta forma o eu vai assumindo seu ser em relação ao contato com os outros. Aqui não é uma relação determinante, mas podemos dizer de auxílio, pois o outro não determinará a minha essência nem minhas reações frente ao meu eu vivencial.

3.1 Sobre o papel da fenomenologia na clarificação da noção de empatia conforme Edith Stein

Na fenomenologia de Edith Stein, separa-se cuidadosamente os diversos significados que se usam na linguagem, até penetrar nas coisas mesmas a fim de expor um sentido mais preciso e essencial. O desafio fenomenológico é resgatar o sentido claro das coisas mesmas que foram designadas pelos recursos simbólicos. Essa “coisa mesma” não é a coisa concreta, mas é algo essencial e, portanto, universal[67].

Em vez de um sistema de proposições, a fenomenologia[68] apresenta uma espécie de “olho fenomenológico”, com as suas respectivas exigências metodológicas: “libertar-se de preconceitos que impedem a visão espontânea da realidade, atenção ao que se apresenta originariamente na percepção, acostumar-se a ir ao essencial e precisar com todo rigor seu sentido e alcance, superando a maneira cotidiana de ver baseada em necessidades vitais”[69].

            Se há distintos modos de realidade ao redor do ser humano, a fenomenologia adapta-se às diferentes formas de apresentação dos objetos e às diferentes atitudes cognitivas dos sujeitos. O ser humano possui, em seu existir, experiências das mais diversas: umas de conotação natural, outras mais reflexivas. São essas experiências que se dão desde sua gestação até seu falecimento, que em si são experiências únicas. Todas essas experiências na fenomenologia recebem o nome de “vivências” (Erlebnisse) e podem ocorrer no eu vivente. Estar “vivo”, enquanto pessoa humana, vai além do conceito de vivo aplicado ao reino vegetal e animal. É um ser vivo relacional e relacionante, com capacidade de percepção, reflexão, com sentido de tempo, fantasias entre tantas outras capacidades. O ser humano está em constante vivenciar; o seu próprio corpo é o canal de abertura entre o externo e o interno. Os órgãos dos sentidos tem papel imprescindível nesta interação. Também é preciso considerar essas vivências do ponto de vista filosófico fenomenológico. Tais vivências se dão através do que chamamos de fenômenos “aquilo que aparece[70]”.

Contudo os fenômenos analisados pela fenomenologia não se limitam às coisas exteriores, nem mesmo o nosso conhecimento limita-se a eles. Há outro manancial de fenômenos internos que temos também, a capacidade de conhecer não só de maneira superficial, mas também aprofundada, que é a “reflexão”. Ora, a reflexão me possibilita ir além das minhas sensações exteriores e interiores, ela me permite um conhecimento maior e nesse processo reflexivo é utilizado o método fenomenológico. Além das informações que os órgãos dos sentidos possam me dar; também busco o sentido que o fenômeno me traz. Por exemplo: somente o conhecimento de que estou com medo não mais me satisfaz e passo a buscar saber sua origem e seus efeitos.

Nesse caso, a busca do sentido das vivências nos possibilitará um conhecimento mais verdadeiro. Um conhecimento mais verdadeiro de minhas vivências pode me levar a um conhecimento mais verdadeiro de quem eu sou. Este eu que tem experiências, que vive e sabe que vive, consciente de suas capacidades, não é isolado, pois não está só no mundo. Existem tantos e tantos outros que, semelhantes a mim, também sentem, conhecem, dispõem da mesma capacidade que eu[71].  

A estes chamamos de “o outro” - é tão profunda esta expressão - é uma espécie de   “outro eu” (alter ego). E este outro eu tem suas próprias vivências sendo ele mesmo um núcleo vivencial e justamente por isso ele é outro, outro com as mesmas capacidades do “eu” e daí uma mesmidade, porém é diferente do meu eu, é um “outro eu”. Há uma relação profunda entre esta vivência pessoal, a vivência do outro e, principalmente, com a constituição do indivíduo, considerando seus elementos físicos, psicológicos e espirituais.

É irrefutável que diante da existência humana, existe uma série de vivências idênticas como, por exemplo, o nascimento de um filho, a morte de um ente querido, entre tantas e tantas outras. Não é somente o meu eu isolado que teve essa vivência, mas, de certa forma, ela é compartilhada por inúmeras pessoas. Mesmo que tal vivência não esteja acontecendo neste momento, na “vivência atual”, ela pode ser presentificada em minha recordação. Quem é avô não precisa ter outro filho neste momento atual para saber como é ser pai, pois existe uma recordação da vivência da paternidade[72].

Edith Stein tinha essa convicção profunda de que a metodologia fenomenológica permite o estudo das condições de possibilidade da empatia. A fenomenologia trata da origem do conhecimento na subjetividade da consciência, a qual percebe as evidências das intuições relacionadas à qualquer área do conhecimento, inclusive com a antropologia filosófica. A questão da pessoa humana é especialemente importante na fenomenologia de Edith Stein, pois é preciso analisar como os objetos relacionados com a empatia aparecem na consciência. A explicação fenomenológica de um determinado conceito, como a empatia, passa pela referência filosófica às diversas operações antropológicas envolvidas na sua origem[73].

 

4 da análise da empatia ao desenvolvimento de uma filosofia fenomenológica da pessoa humana

 

            A tese de doutorado de Edith Stein[74] sobre a empatia abre algumas perspectivas para o desenvolvimento de uma filosofia fenomenológica da pessoa humana. O conjunto da obra de Edith Stein parece reforçar essa relação entre empatia e antropologia filosófica quando se considera as possibilidades abertas nas demais obras de Edith Stein. O estudioso da obra steiniana pode-se perguntar sobre a recorrência de alguns temas apresentados em Sobre o problema da empatia em obras posteriores da filósofa alemã.

Edith Stein utiliza o método fenomenológico no conjunto de sua obra sobre a empatia, pois é um instrumental que está incorporado no seu modo de analisar os fenômenos, mas ela faz uso da fenomenologia especialmente quando passa para a descrição das experiências vividas, o que é típico da fenomenologia. Neste caso, interessa as experiências de empatia, incluindo dimensões intelectuais, voluntárias e afetivas. Isto justifica-se porque a interioridade é o terreno privilegiado da investigação fenomenológica.

Nos seus estudos sobre empatia, Stein havia mostrado que para transitar ao outro a partir de si mesmo é preciso expor o conteúdo de si mesmo em que se apóia o eu. Neste, há uma peculiar especificação essencial correspondente à singularidade do eu. Pelos estudos de Stein sobre a estrutura formal da pessoa, a unidade do eu, consciente de si mesmo, leva a considerar a essência da pessoa como o mais próprio, atribuindo ao outro, empaticamente, unicidade e originalidade, na medida em que parece tentar sentir o que ele sente, introduzindo em si a atitude pessoal do outro, como uma intropatia indutiva.

Edith Stein estava determinada a compreender a estrutura da pessoa humana e ela se convenceu de que a fenomenologia era a melhor abordagem para seguir esta investigação[75]. Na perspectiva do desenvolvimento teorético da noção de empatia, utilizando o instrumental de interpretação fenomenológica, a partir da obra Sobre o conceito de empatia, de Edith Stein[76], manifestam-se muitos desafios que poderão motivar futuras pesquisas na área das ciências humanas em geral, procurando compreender o conceito de pessoa e sua estrutura psíquica, corporal e espiritual. Este aprofundamento da metodologia fenomenológica aplicada no conceito de empatia poderia ser generalizada para aplicações no pensamento filosófico cristão. As futuras pesquisas, por exemplo, poderiam ser desenvolvida na aplicação da clarificação fenomenológica aplicada à interpretação da noção de empatia e à descrição do alcance desta psicologia da estrutura que permite a empatia, considerando principalmente as noções antropológicas relacionadas (corpo, sentimento, vontade, etc.).

Posteriormente, Edith Stein iria focar-se na reflexão sobre a ciência e a prática pedagógica, até mesmo em virtude da sua atividade docente no Instituto de Pedagogia Científica em Münster, Alemanha, onde teve oportunidade de ministrar um curso de antropologia filosófica em 1932[77]. No ano seguinte, seus cursos foram interrompidos, pois o governo nazista a destituiu do magistério pelo fato de ter ascendência hebraica[78]. Os cursos antropológicos ministrados neste período foram publicados no volume IV das Obras Completas, em espanhol (Editorial Monte Carmelo de Burgos), dedicado aos escritos antropológicos e pedagógicos de Edith Stein[79], estando também no volume XIV da coleção Edith Steins Gesamtausgabe (ESGA): “A estrutura da pessoa humana: lições sobre antropologia filosófica” (Der Aufbau der menschlichen Person: Vorlesungen zur philosophischen Anthropologie).

Na introdução da tradução espanhola de “A estrutura da pessoa humana: lições sobre antropologia filosófica”, Francisco Sancho Fermín e Julen Urkiza[80] fizeram uma relação desta obra com a tese de doutorado sobre empatia. Afinal, a própria autobiografia de Edith Stein[81] revela que a obra Sobre o problema da empatia começou seguindo a sugestão husserliana de tratar a empatia como uma ato de conhecimento, mas ampliou sua reflexão, avançando para o tema antropológico que correspondia ao seu interesse pessoal naquela época, mas seria aprofundado, 15 anos depois, nas lições sobre “A estrutura da pessoa humana[82]”.

Mais recentemente, o professor Urbano Zilles[83] insistiu na importância do tema “antropológico” para o desenvolvimento da obra de Edith Stein: “depois do doutorado, a preocupação central de quase todos os seus trabalhos é a construção e estruturação da pessoa humana”[84]. Olhando a obra de Edith Stein como um todo, a análise torna-se mais complexa na medida em que envolve questões teológicas e místicas, considerando a sua conversão ao catolicismo e o seu encontro com a obra de Santa Teresa de Jesus[85] (1515-1582). Também é possível considerar uma perspectiva mais focada na antropologia teológica e até mesmo tirar conclusões pedagógicas, mas a questão da “pessoa humana” possui uma importância central no pensamento filosófico de Edith Stein, como foi destacado pelo doutor Urbano Zilles ao falar sobre fenomenologia e teoria do conhecimento, em um seminário internacional de antropologia teológica: “a questão fundamental em torno da qual gira toda a sua obra filosófica, depois da conversão ao catolicismo, de modo especial em Der Aufbau der menschlichen Person, é a seguinte: O que é o homem? Como formar sua personalidade numa perspectiva cristã?[86]

A obra “Sobre o problema da empatia” apresentou um "primeiro rascunho da natureza psico-física-espiritual da pessoa", abrindo questões que serão retomadas nos seus trabalhos posteriores[87]. O estudo de Edith Stein[88] sobre empatia é um marco no seu desenvolvimento fenomenológico. Neste artigo, será retomado parte do trajeto filosófico que a doutoranda assumiu na análise da empatia, procurando fazer relações com esse seu projeto de esclarecer a estrutura da pessoa humana. Em obras posteriores, Edith Stein[89] desenvolveria uma antropologia filosófica propriamente dita, passando pelos aspectos espirituais, psíquicos e físicos que constituem a estrutura da pessoa humana. Contudo, por que a jovem filósofa precisava se aprofundar tanto na questão do ser pessoa e de seus elementos constituintes ao tratar de um assunto que poderia ser focado na teoria do conhecimento propriamente dita? Talvez porque a compreensão da vivência da empatia passa pela compreensão do ser humano e de suas relações, abrindo um leque de questões filosóficas e psicológicas.

A relação da empatia com as ciências humanas e sociais em geral foi reconhecida por Dermot Moran[90]. Neste artigo, acrescentamos a importância da antropologia filosófica e deste projeto de “filosofia da pessoa humana” nesse conjunto de relações da empatia. O filósofo irlandês cita Max Scheller, Theodor Lipps e o próprio Husserl para explicar que essa temática ampla da empatia se deva ao fato de que ela não seja um fenômeno isolado, mas corresponde a diversos temas centrais para a psicologia, a filosofia, a ética, a sociologia, a teoria política e para as ciências humanas em geral, como foi enfatizado por Edith Stein[91].

Na sua tese de doutorado, a filósofa alemã se refere à empatia, inclusive, no relacionamento da pessoa com Deus[92]. Além da empatia, essa abertura para o “outro” em geral talvez seja fundamental para a fenomenologia. Nas Meditações Cartesianas[93], Edmund Husserl[94] (1973a, §44) se referiu à importância dos “outros assuntos” (Fremdsubjekten), que são abordados pela fenomenologia, procurando clarificar suas respectivas vivências[95]. A fenomenologia parte das análises das vivências relacionadas ao reconhecimento das outras pessoas[96], mas há muitas possibilidades para problematizar epistemologicamente esse fenômeno amplo e difuso do conhecimento dos demais como pessoas que também possuem suas respectivas consciências. Na busca da compreensão dessa experiência empática do outro, Edith Stein[97] oferece uma colaboração que merece ser aprofundada naquilo que se refere à tese Sobre o problema da empatia, mas também ao conjunto de sua obra, na medida em que desenvolve os princípios de uma filosofia fenomenológica da pessoa humana.

 


[1]             M. Baseheart. “On the Problem of Empathy”: Foreword to the Third Edition. In: E. Stein. On the Problem of Empathy: The Collected Works of Edith Stein, vol. 3. Third Revised Edition. Translated by W. Stein (Washington, D.C.: ICS Publications: Kluwer Academic Publishers, 1989), ix-xi.

[2]             No original: “it sketches the broad outlines of her philosophy of the human person, details of which she fills in in subsequent investigations” (tradução dos autores).

[3]             Baseheart, On the Problem of Empathy: Foreword..., ix.

[4]             F. S. Fermín, 100 fichas sobre “Edith Stein” (Burgos: Monte Carmelo, 2005).

[5]             Fermín, 100 fichas sobre “Edith Stein”, 99.

[6]             E. Stein, Zum Problem der Einfühlung (Teil II–IV der unter dem Titel: Das Einfühlungsproblem in seiner historischen Entwicklung und in phänomenologischer Betrachtung vorgelegten Dissertation). Referent: Herr Professor Dr. Husserl
 (Halle
: Buchdruckerei des Waisenhauses
, 1917, ESW IV, Köln: Karmelitinnenkloster Maria vom Frieden, disponível em: <http://www.edith-stein-archiv.de/wp-content/uploads/2014/10/05_EdithSteinGesamtausgabe_ZumProblemDerEinfuehlung_Teil_II_IV.pdf, acesso em: 03 jul. 2017).

[7]             No original: “Ideen zu einer reinen Phänomenologie und phänomenologischen Philosophie. Erstes Buch: Allgemeine Einführungin die reine Phänomenologie”.

[8]             E. Husserl, Ideen zu einer reinen Phänomenologie und phänomenologischen Philosophie. Erstes Buch: Allgemeine Einführungin die reine Phänomenologie, 1. Halbband: Text der 1.-3. Auflage- Nachdruck. Hrsg. von K. Schuhmann (Den Haag: Martinus Nijhoff, 1976, Hua III/1).

[9]             E. Stein, “Estructura de la persona humana”. In: STEIN, Edith. Escritos Antropológicos y Pedagógicos: Magisterio de vida cristiana, 1926-1933. Obras Completas, vol. IV. Org.: J. Urquiza y F. J. Sancho (Madrid: Monte Carmelo-Burgos: El Carmen: De Espiritualidad, 2003), 590.

[10]           E. Husserl, Logische Untersuchungen. Zweiter Band, Erster Teil. Untersuchungen zur Phänomenologie und Theorie der Erkenntnis. In Zwei Bänden. Hrsg. von U. Panzer (Den Haag: Martinus Nijhoff, 1984, Hua XIX/1).

[11]           E. Stein, “Autobiografía. Vida de una família judía”. In: E. Stein. Escritos Autobiográficos y cartas. Obras Completas, vol. I. Org.: J. Urquiza y F. J. Sancho. (Madrid: Monte Carmelo-Burgos: El Carmen: De Espiritualidad, 2002.)

[12]           Stein, Autobiografía...

[13]           A. A. Bello. Fenomenologia e ciências humanas: psicologia, história e religião. Trad.: Miguel Mahfoud, Marina Massimi (Bauru: EDUSC, 2004), 65.

[14]           C. Vargas. A concepção de probabilidade a partir da crítica de Husserl ao psicologismo lógico. 2015. 420f. Tese (Doutorado em Filosofia - Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba, 2015).

[15]           T. Nenon. “Edmund Husserl”. In: K. Ansell-Pearson; A. Schrift. The New Century: Bergsonism, Phenomenology, and Responses to Modern Science. Volume 3: The History of Continental Philosophy (Chicago: The University of Chicago Press, 2010), 157.

[16]           Fermín, 100 fichas sobre “Edith Stein”, 20.

[17]           J. N. Mohanty. “The development of Husserl’s thought”. In: B. Smith; D. Smith (org.). The Cambridge Union to Husserl (Cambridge: Cambridge University Press, 1995), 45-77.

[18]           A. A. Bello, Fenomenologia e ciências humanas…, 64.

[19]           No original: Ideen zur einer reinen Phänomenologie und phänomenologischen Philosophie. Zweites Buch: Phänomenologische Untersuchungen zur Konstitution.

[20]           E. Husserl, Ideen zur einer reinen Phänomenologie und phänomenologischen Philosophie. Zweites Buch: Phänomenologische Untersuchungen zur Konstitution. Hrsg. von M. Biemel (Den Haag: Martinus Nijhoff, 1952, Hua IV).

[21]           Stein, Autobiografía...

[22]           Fermín, 100 fichas sobre “Edith Stein”.

[23]           D. Moran. “The Problem of Empathy: Lipps, Scheler, Husserl and Stein”. In: T. Kelly.; P. Rosemann. Amor Amicitiae: On the Love that is Friendship. Essays in Medieval Thought and Beyond in Honor of the Rev. Professor James McEvoy (Leuven: Peeters, 2004), 269-271.

[24]           Moran. The Problem of Empathy..., 270.

[25]           Stein. Zum Problem der Einfühlung, 15-22

[26]           E. Husserl, Urteilstheorie. Vorlesung 1905. Hrsg. von E. Schuhmann (Dordrecht: Kluwer Academic Publishers, 2002, Hua Mat V).

[27]             J. VIQUEIRA. La Psicología Contemporánea (Barcelona: Editorial Labor, 1937. Disponível em: <http://www.e-torredebabel.com/Psicologia/Psicologia-Contemporanea-Viqueira.htm>. Acesso em: 29 dez. 2014).

[28]           T. Lipps, Leitfaden der Psychologie, Dritte, teilweise umgearbeitete Auflage (Leipzig: Verlag von Wilhelm Engelmann, 1909).

[29]           Lipps, Leitfaden der Psychologie…, 222-240.

[30]        K. Schuhmann. Husserl-Chronik. Denk und Lebensweg Edmund Husserls. Husserliana – Dokumente, Band I (Dordrecht: Martinus Nijhoff, 1981), 159.

[31]           A. Fidalgo, O Realismo da Fenomenologia de Munique (Covilhã: LusoSofia Press, 2011), 34

[32]           Fidalgo, O Realismo da Fenomenologia…, 33-144.

[33]           E. Husserl, Logische Untersuchungen. Erster Teil. Prolegomena zur reinen Logik. Text der 1. und der 2. Auflage. Hrsg. von E. Holenstein (Den Haag: Martinus Nijhoff, 1975, Hua XVIII)

[34]           Moran, The Problem of Empathy..., 277.

[35]           Lipps, Leitfaden der Psychologie…

[36]           Husserl, Logische Untersuchungen. Erster Teil...

[37]           E. Husserl, Zur Phänomenologie der Intersubjektivität. Texte aus dem Nachlass. Erster Teil. 1905-1920. Hsg. Von I. Kern (Den Haag: Martinus Nijhoff, 1973, Hua XIII).

[38]           Moran, The Problem of Empathy..., 290-301.

[39]           Stein, Zum Problem der Einfühlung, 15.

[40]           Stein, Zum Problem der Einfühlung, 15-22.

[41]           Stein, Zum Problem der Einfühlung.

[42]           Stein, Zum Problem der Einfühlung, 10.

[43]           Stein, Zum Problem der Einfühlung, 18.

[44]           M. Farias, A Empatia como condição de possibilidade para o agir ético. 2013. 97f. Dissertação (Mestrado Acadêmico em Filosofia. Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, 2013), 32.

[45]           E. Stein, Zum Problem der Einfühlung, 27.

[46]           Stein, Zum Problem der Einfühlung, 8-36.

[47]           Stein, Zum Problem der Einfühlung, 37-77.

[48]           Stein, Zum Problem der Einfühlung, 37.

[49]           Stein, Zum Problem der Einfühlung, 38.

[50]           Stein, Zum Problem der Einfühlung, 40.

[51]           Stein, Zum Problem der Einfühlung, 46.

[52]           Stein, Zum Problem der Einfühlung, 47.

[53]           Stein, Zum Problem der Einfühlung, 50.

[54]           Farias, A Empatia como condição de possibilidade…, 38.

[55]           Farias, A Empatia como condição de possibilidade…, 38.

[56]           Stein, Zum Problem der Einfühlung, 46.

[57]           Farias, A Empatia como condição de possibilidade…, 38-39.

[58]           Farias, A Empatia como condição de possibilidade…, 39.

[59]           Stein, Zum Problem der Einfühlung, 46.

[60]           Farias, A Empatia como condição de possibilidade…, 40.

[61]           Stein, Zum Problem der Einfühlung, 47.

[62]           Farias, A Empatia como condição de possibilidade…, 41.

[63]           Farias, A Empatia como condição de possibilidade…, 41.

[64]           Stein, Zum Problem der Einfühlung.

[65]           Stein, Zum Problem der Einfühlung, 59.

[66]           Farias, A Empatia como condição de possibilidade…, 44.

[67]           Carlos Vargas, “A clarificação fenomenológica de Edith Stein: ponte epistemológica entre a antropologia filosófica e a teologia simbólica”, Interações - Cultura e Comunidade, Uberlândia, v. 7, n. 12, 165-181, (jul./dez. 2012), 171.

[68]           A. A. Bello. Introdução à fenomenologia. Trad. Ir. Jacina Turolo Garcia e Miguel Mahfoud (Bauru, São Paulo: Edusc, 2006).

[69]           Vargas, A clarificação fenomenológica de Edith Stein…, 171.

[70]           Farias, A Empatia como condição de possibilidade…, 33-34.

[71]           Farias, A Empatia como condição de possibilidade…, 35.

[72]           Farias, A Empatia como condição de possibilidade…, 35.

[73]           Vargas, A clarificação fenomenológica de Edith Stein…, 172.

[74]           Stein, Zum Problem der Einfühlung.

[75]           Baseheart, On the Problem of Empathy: Foreword..., ix-x.

[76]           Stein, Zum Problem der Einfühlung.

[77]           E. Stein, Der Aufbau der menschlichen Person: Vorlesungen zur philosophischen Anthropologie. Münster 1932/33 (Köln: Karmelitinnenkloster Maria vom Frieden. Disponível em: <http://www.edith-stein-archiv.de/wp-content/uploads/2014/10/14_EdithSteinGesamtausgabe_DerAufbauDerMenschlichenPerson.pdf>, acesso em: 16 jul. 2017).

[78]           U. Zilles, “A Antropologia em Edith Stein”. In: L. Brustolin et al. (org.). Anais do Seminário Internacional de Antropologia Teológica: pessoa e comunidade em Edith Stein (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2016, Disponível em: <http://ebooks.pucrs.br/edipucrs/anais/seminario-internacional-de-antropologia-teologica/assets/2016/7.pdf>), 2-3.

[79]           Stein, Estructura de la persona humana...

[80]           F. S. Fermín; J. Urkiza. “Introducción”. In: E. STEIN. Escritos Antropológicos y Pedagógicos. Magisterio de vida cristiana, 1926-1933. Obras Completas, vol. IV. Org.: J. Urquiza y F. J. Sancho (Madrid: Monte Carmelo-Burgos: El Carmen: De Espiritualidad, 2003), 556.

[81]           Stein, Autobiografía...

[82]           Stein, Der Aufbau der menschlichen Person...

[83]           Zilles, A Antropologia em Edith Stein…

[84]           Zilles, A Antropologia em Edith Stein…, 4.

[85]           S. Teresa de Jesus. Obras completas: edicion manual. Trad. e Pref.: Efren de la M. Dios et Otger Steggink. 4ª ed (Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1974).

[86]           Zilles, A Antropologia em Edith Stein…, 5.

[87]           Stein, Der Aufbau der menschlichen Person...

[88]            Stein, Zum Problem der Einfühlung.

[89]           Stein, Der Aufbau der menschlichen Person...

[90]           Moran. The Problem of Empathy..., 272-273.

[91]           Stein, Zum Problem der Einfühlung.

[92]           Stein, Zum Problem der Einfühlung, 15.

[93]           Esta obra foi publicada no volume 1 da coleação Husserliana com o título: “Cartesianische Meditationen und Pariser Vorträge” (Meditações cartesianas e conferências de Paris).

[94]           E. Husserl, Cartesianische Meditationen und Pariser Vorträge. Hsg. von S. Strasser. 2. Auflage (Den Haag: Martinus Nijhoff, 1973, Hua I).

[95]           Moran. The Problem of Empathy..., 272.

[96]           Moran. The Problem of Empathy..., 311.

[97]           Stein, Zum Problem der Einfühlung.